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quarta-feira, janeiro 31

 

Noite encantada

Fadas entoam
Hinos à Mãe Lua
Enquanto os homens deitam.

Fadas dançam
Unidas à luz lunar
Enquanto os homens sonham.

Fadas ajeitam
Suas camas de flores
Enquanto os homens acordam.

Homens lutam
Diariamente sob a luz do Sol
Enquanto as fadas sonham.

segunda-feira, dezembro 25

 

Na noite de Natal...

Na noite de 24 de dezembro, Carlos olhava as vitrines apagadas do centro do Rio sem nenhuma animação. Quando seus pais eram vivos, anos atrás, o Natal ainda tinha alguma graça. Agora, as decorações, as pessoas cheias de sacolas, todo o clima não pareciam sequer fazer sentido.

Aliás, a idéia toda era ridícula. Comemorar o nascimento de alguém que até hoje não se provara a existência, na mente do garoto de quinze anos, chegava a ser uma grande tolice. Fingir que tudo estava bem, que naquele dia todos os problemas do mundo estariam sendo resolvidos, era hipocrisia.

Não dava para ignorar o cheiro do lixo acumulado nos cantos escuros. Ou achar que as famílias de mendigos miseráveis dormindo na praça do Castelo estavam ali por quererem comemorar na rua.

Ao contrário dele, que escolhera estar ali. Dera uma desculpa qualquer aos tios, fingiu não ver os olhos magoados da família que o adotara e saira para andar sem destino. Não se interessava em estar ali, comemorando o nada. No dia seguinte, abriria os presentes e comeria os restos.

Andou um bocado pela Avenida Rio Branco, bem no meio da rua. Não tinha movimento, era como se ele estivesse sozinho. Ficou perdido dentro de si mesmo, remoendo as infelicidades dos seus quinze anos. Classe média, morando com os tios, estudando em uma boa escola, tendo uma mesada razoável, sofria com a incompreensão. Será que só ele via as crueldades do mundo? Era o único que percebia o quanto de sofrimento afetava os menos favorecidos?

Uma buzina o trouxe de volta à realidade. Uma senhora em um Corsa preto parara ao seu lado.

- Boa noite, meu rapaz, você poderia me explicar como eu faço para chegar na Lagoa?

Aborrecido, Carlos começou a explicar.

- Olha, a senhora desce a rua até o final. Na Cinelândia, a senhora tem que pegar a pista do Aterro e...

Ela o interrompeu com um gesto.

- Meu querido, com certeza eu vou me perder... Desculpe incomodar mais ainda, você poderia ir comigo até lá? Eu pago o táxi para você voltar...

Estranhou um pouco. Mas a velha estava sozinha, e se ele reparasse que o caminho não era o certo, poderia saltar mesmo com o carro em movimento. Resolveu arriscar e sentou no banco do carona.

- Agora, o que um rapaz como você está fazendo no centro do Rio à essa hora?

Carlos respondeu entre dentes.

- Passeando.

- E sua família?

- Em casa, comemorando o Natal...

- Por que não está com eles?

- Não gosto de Natal. Não acredito em Cristo e nessas coisas todas. Olha, a senhora entra aqui...

Ela conduziu o carro.

- Sabe... Como é o seu nome?

- Carlos.

- Então, Carlos. Quem disse que só quem acredita em ?Cristo e nessas coisas todas? gosta de Natal?

Ele cruzou os braços.

- Olha, dona, se vai me dar lição de moral e coisa assim, avisa. Eu não quero saber. Não gosto e tenho direito de não gostar.

A mulher concordou e continuou dirigindo em silêncio por alguns minutos, seguindo as direções que Carlos dava.

Em um dado momento, voltou a falar.

- Natal não tem muito a ver com o nascimento de ninguém... Claro, quem é cristão diz que é sobre isso... Mas Natal tem a ver com esperança. Várias culturas comemoram essa época do ano, pedindo renovações e melhorias...

- E de que adianta? O mundo está uma merda mesmo...

- Entre achar que ele está ruim e acreditar que ele pode melhorar há toda a diferença...

Chegaram na Lagoa. Rodaram mais um pouco e pararam defronte à grande árvore montada no espelho d?agua.

- Veja isso. É um produto de marketing, mera propaganda de uma instituição financeira...

- Exatamente, dona, com esse dinheiro todo muitas pessoas poderiam comer...

- Concordo. Pode ser um grande desperdício, mas firmas capitalistas não estão no mundo para fazer caridade ou buscar melhora-lo. Quem está no mundo para isso, somos nós...

- E o que uma simples pessoa pode fazer?

- Simplesmente a sua parte. Talvez essa árvore seja apenas golpe publicitário, porém se apenas uma pessoa, ao olhá-la, sentiu-se melhor e com mais vontade de ajudar os outros, ela valeu a pena ter sido construída...

- A senhora é muito otimista... ? Carlos olhou para o lado quando falou, e tomou um susto. A mulher ao seu lado não era a velhinha que estivera com ele, mas uma jovem loira, olhos verdes transparentes e pele que parecia brilhar com luz própria. Não podia dizer se era feia ou bonita, pois tudo ao seu redor parecia embaçado, como se ela estivesse em outro lugar.

A senhora sorriu ao ver que seu disfarce se desvanecera.

- Sou sim, Carlos. Estou nesse mundo há muito tempo, tempo demais. Vi o seu povo descer das árvores, morar em cavernas, começar a construir cavernas... Conheci mesmo esse Jesus, um homem digno e honrado, que morreu por algo em que acreditava. E vi as palavras dele se transformarem em gritos de guerra. O povo de vocês me é estranho e familiar ao mesmo tempo. Por mais que tente, jamais vou entendê-los, mas os amo mesmo assim... E tenho certeza de que um dia, conseguirão o equilíbrio.

Eles estavam fora do carro. Caminhavam na beira da lagoa. Carlos conhecia o lugar há anos, mas ele parecia diferente... Em um momento, ela parou e o encarou.

- Pense nisso. Sem esperança, ninguém é nada. Jesus morreu por ter esperança que isso melhorasse o mundo... Acreditar em algo melhor é o que os torna humanos. E assim vocês são mais do que deuses...

Em um piscar de olhos, Carlos estava de volta ao mesmo ponto na Rio Branco. Olhou o relógio, que não havia se movido um minuto. Onze e quarenta. Se pegasse um táxi, daria tempo de chegar em casa para a ceia...


segunda-feira, novembro 27

 

O mapa da Terra das Fadas


Para Nugu, o Selvagem
Março-novembro/2006.
Uma vida curta, mas plena


O menino chorava, desconsolado com a morte do coelhinho. O corpo, coberto com o pelo branco macio, estava ali, no lugar em que encerrara a sua curta vida de roedor despreocupado. Morrera de nada, de mansinho. Até mesmo a vira-lata, inimiga ferrenha e perseguidora implacável, parecia entristecida. Deitada, o nariz entre as patas, de vez em quando soltava um bufar, como se suspirasse.

A mãe fez eco com a cachorrinha. Estava cansada da cena. Compreendia a tristeza do menino, mas o que podia fazer?

- Anda, Miguel. É assim que a vida é... Os bichinhos morrem. Mamãe vai arranjar outro pra você.

Os olhos baixos, Miguel respondeu.

- Você não entende, mãe... O Nugu era o mais especial dos coelhos. Ele era...

A mãe ajoelhou-se pra ficar perto do rosto do menino.

- Ele era o que, amor?

Ergueu a cabeça, os olhos brilhando, das lágrimas e pelas lembranças.

- Era mágico! Esqueceu? Era amigo das fadas, você mesma contou...

Afagou os cabelos castanhos.

- Então, ele deve estar bem... Provavelmente, está indo pro Mundo das Fadas...

As lágrimas voltaram a brilhar.

- E se ele não souber o caminho? Ele pode se perder... Mãe...

Ela respondeu distraída, já pensando em como fazer com o corpo do animal.

- O que?

- Você não é bruxa? Poderia ajudar o Nugu... Fazer um mapa.

A proposta a pegou de surpresa. Sim, ela era "bruxa", no sentido que adorava antigos deuses, fazia rituais para celebrar a mudança nas estações do ano e buscava conhecimentos mágicos. Mas tinha pouca, senão nenhuma, familiaridade com fadas.

- Mas como eu vou fazer isso, Guel?

Um sorriso brilhou, com a confiança que as crianças mais pequenas tem na infalibilidade dos pais.

- Fazendo, ué. Você é a mãe bruxa mais poderosa de todo o Universo...

Tentando acalmar o filho - e diminuir a própria tristeza, afinal ela própria iria sentir falta do coelho - sentou-se no chão.

- Senta aqui comigo. - olhou o Nugu, deitado. Parecia que estava fingindo como tantas vezes fizera para enganar Phoebe, a cachorra. Ela aproximava-se, confiante de que finalmente o pegaria, para ganhar uma patada no focinho, quando ele se erguia correndo para se esconder. Parecendo lembrar disso, a vira-lata levantou os olhos. Quem sabe não era mais um truque?

Ana sorriu, pois descobrira uma maneira de ajudar o filho a passar pela dor do luto.

- Vamos lá... Do que é feita a Terra das Fadas?

Ele nem piscou para responder.

- De coisas doces!

- E que coisas doces temos aqui?

Dessa vez, ele precisou de um tempo para responder.

- As goiabas, mãe?

Sorriso aberto, ela assentiu, concordando.

- Isso mesmo, filhote. Pegue aquela que está no galho mais baixo... Assim... Agora, traga aqui.

A fruta foi colocada bem defronte ao focinho do coelho.

- Muito bem, e sabe o que mais tem na Terra das Fadas?

- Cores!!! Muitas cores!

A mãe não precisou dizer mais nada, pois o pequeno correu para colher algumas flores, acompanhado por Phoebe. Nugu, o Selvagem - como a mãe o chamava - devastara o pequeno quintal. Sobraram a goiabeira, a videira, um pé de acerola, muitas marias-sem-vergonha e flores rasteiras. Miguel voltou com as mãozinhas cheias de cores: vermelhas, amarelas, brancas, roxas, azuis. Uma boa coleção para indicar o caminho. Sem esperar ordem posterior, arrumou-as ao redor do bichinho com cuidado.

- Falta alguma coisa?

A mãe sorriu.

- Falta um pouco de esperança. Sem isso, como o Nugu vai achar o caminho?

Miguel ficou desolado.

- Mas mãe... Como a gente vai arrumar esperança?

Ela pareceu ficar pensativa.

- Bom, a cor que representa a esperança é verde...

- E as folhas são verdes! Eu vou usar as do pé-de-uva, porque eram as que o Nugu mais gostava e não conseguia alcançar.

A mãe conteve um arrepio ao vê-lo subir no banquinho de concreto para pegar folhas de parreira. Ele voltou com um punhado nas mãos, que entregou muito sério.

- Eu vou arrumá-las na direção da Terra das Fadas. Você sabe onde fica?

O menino apontou para o sol poente. Ela colocou-as em fila, saindo das patinhas da frente até quase a escada que descia para a casa onde moravam.

- Agora, vamos fechar os olhos e pensar em coisas boas...

- Eu já sei no que eu vou pensar, mãe. Vou imaginar o Nugu correndo na Terra das Fadas!

Os dois deram-se as mãos. Ana começou a pensar também, desejando que o bichinho estivesse bem, onde quer que fosse.

Um vento frio bateu, vindo do nascente para o poente. Ela abriu os olhos. Viu que Miguel batia palmas e sorria, enquanto Phoebe latia alucinada.

Um pequeno rodamoinho erguera as flores e folhas, que agora agitavam-se no ar.

- Olha, mãe, as fadas, elas vieram buscar o Nugu!

A cachorra parecia concordar, latindo e correndo, como se acenasse um adeus. Ana olhou para a mistura de cores a sua frente. Não tinha a pureza de seu filho ou da vira-lata, mas via borboletas no meio das pétalas.

E tufos de algodão, brancos e macios como pelo de coelho, também giravam alegremente. O rodamoinho avançou, envolvendo-a. Ela ouviu o som de gargalhadas alegres e pareceu sentir, pela última vez, o calor do coelho, que tantas vezes aninhara no colo.

Uma lufada mais forte e o pequeno tufão continuou sua jornada para o sol que terminava de se pôr. Phoebe deitou-se, quase tão esbaforida e exausta quanto Miguel, sentado ao seu lado.

Ana deu uma última olhada no corpo e de repente ele não parecia mais tão vivo quanto antes.

quinta-feira, fevereiro 2

 

Cubo Formado

Eis que o Cubo de Sonhos foi finalmente formulado em sua plenitude.

Uma coisa estranha é quando utilizamos nossa mente sem controle, o acesso dos pensamentos nos inunda, e dessa forma fica praticamente impossível raciocinar direito. É necessário, para que o processo de criação seja passível de sucesso, parar por alguns segundos especiais, respirar fundo e neutralizar a mente que não deseja calar.

O Cubo está pronto, agora podemos inserir dentro dele todos os contos que as criaturas faéricas nos contaram!

Sejam bem vindos todos, e de todas as idades!

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